Sonho de uma noite de verão
HÉRMIA: Lisandro, porque me abandonaste?
LISANDRO: Para ir ver meu amor, minha rainha.
HÉRMIA: Que rainha ou amor faz com que me deixe sozinha?
LISANDRO: A bela Helena, que brilha iluminando a noite escura mais que
luz pura.
HÉRMIA: Impossível, não está dizendo o que pensa.
HELENA: Hérmia, está ao lado deles? Esqueceis as confidências de
infância? Os votos de irmãs? Óh, ingrata Hérmia.
HÉRMIA: Não entendo o que diz, já que a vítima sou eu.
HELENA: Demétrio me desprezava e agora deita aos meus pés. Lisandro
jurava amor por vós, agora me chama de deusa e rainha. Deveria ter piedade, não
desprezo.
HÉRMIA: Não vejo sentido noque diz.
HELENA: Se tivesse piedade ou sentimento, não me escolheria como objeto
de zombaria. Passai bem!
LISANDRO: Não vá amor, vida, minha alma, Helena linda.
HELENA: Admirável!
HÉRMIA: Lisandro, meu amor, não zombes dela.
DEMÉTRIO: Se Hérmia não te convence a parar com a brincadeira, com força
eu farei.
LISANDRO: Amo-te Helena. Juro provar que falso é quem afirma que não te
adoro.
DEMÉTRIO: Amo-te mais, tenho certeza.
LISANDRO: Então venha comigo, decidiremos.
DEMÉTRIO: Neste instante.
HÉRMIA: Porque está brincando assim?
LISANDRO: Para trás, negra etíope!
DEMÉTRIO: Não passa de um pacato de homem...
LISANDRO: Monstro, vai te enforcar, ou será tratada como víbora.
HÉRMIA: Porque está tude comigo?
LISANDRO: Para trás, vomitório! Veneno odioso! Demétrio, manterei minha
palavra.
DEMÉTRIO: Sua palavra pra mim não vale.
LISANDRO: Devo matá-la? Não lhe desejo mal...
HÉRMIA: É possível maior mal que este? Sou obrigada a pensar que está me
deixando.
LISANDRO: Sim, não te quero ver nunca, jamais. À Helena adoro.
HÉRMIA: Ai de mim! Feiticeira! Veio a noite para roubar o coração de meu
amado?
HELENA: Boneca falsa! Ainda tenta me convencer!
HÉRMIA: É assim? Boneca? Aumenta sua estima por eu ser diminuta? Vamos,
fala, varapau rebocado. Não sou tão baixa que não te alcance as unhas.
HELENA: Senhores, não deixem que ela me machuque. Só porque é baixa, não
quer dizer que consiga dominá-la.
HÉRMIA: Baixa, baixa outra vez...
HELENA: Não fique zangada, sempre lhe mostrei amor. Voltarei para Atenas
e não te seguirei mais.
LISANDRO: Nenhum dano ela te causará Helena.
HELENA: Sempre foi pequena, mas perigosa.
HÉRMIA: Permiti que me insulte assim? Verá o que posso fazer...
LISANDRO: Para trás, anãzinha! Dedo mínimo, semente, conta de rosário!
DEMÉTRIO: Insiste em demorar preso à Helena e a ãna!
LISANDRO: Se tem coragem, me segue. Vejamos qual de nós dois a Helena
tem direito.
DEMÉTRIO: Irei junto contigo, não sigo plebeus.
(saem Lisandro e Demétrio)
HÉRMIA: Você é a causa da briga.
HELENA: Se dessas mãos me podem sair feridas, para correr tenho eu
pernas compridas.
(saem Hérmia e Helena. Entra Puck)
PUCK: Ambos moços estão a procura de uma clareira para duelo. Imitarei a
voz de um para fazer com que andem por diferentes lados. Cansados, ao cair no
sono, farei com que tudo volte ao normal.
(Entra Lisandro)
LISANDRO: Tua fúria, deu em nada?
PUCK (dublado por Demétrio): Aqui, vilão! Arranca logo a espada!
LISANDRO: Já vou, já vou.
PUCK (dublado por Demétrio): Então para a clareira me acompanha!
(Sai Lisandro na direção da voz. Entra Demétrio)
DEMÉTRIO: Não sei onde se esconde...
PUCK (dublado por Lisandro): Covarde, com as estrelas é tua briga? Ou
com as arvores? Mandas que te sigas e te escondes de mim? Bonito duelo! Vem,
menino; uma vara de marmelo tenho aqui, pois vergora fora com ferro te punir
por esta ofensa!
DEMÉTRIO: Já vai ver, onde está?
PUCK (dublado por Lisandro): É muito fácil seguir-me a voz tua figura
grácil!
(saem, volta Lisandro)
LISANDRO: Demétrio só tem força nas pernas e na voz. Estou cansado,
venha abençoado dia.
(Deita-se em um canto. Entram Puck e Demétrio)
PUCK (dublado por Lisandro): Olá, covarde! Em que lugar te escondes?
DEMÉTRIO: Vamos brigar no claro, só corujas enxergam nessa escuridão.
(Deita-se no outro canto da sala. Entra Helena)
HELENA: Óh noite tediosa e cansativa, passa depressa! Vem, radiante
aurora!
(Deita-se. Entra Puck)
PUCK: Somente três? Falta um para que o outro par descontente fique
completo... Coitada! Olha como vem triste e cansada.
(Entra Hérmia)
HÉRMIA: Estou tão cansada, dilacerada, toda molhada. Aqui esperarei o
dia belo.
(Deita-se)
PUCK: Quando acordarem com novos ares, ficarão rendidos ao peito fido.
Cada mulher com um varão, com prosa lhana João pega Joana. Quem boa potranca
tem, acha que tudo está bem!









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